Dada a importância da respiração como suporte da coluna de ar diretamente envolvida na produção da sonoridade do instrumento de sopro, este texto, é aludido devido ao seu desdobramento nos aspectos ergonômico e bio-mecânico na técnica destes instrumentos.
A respiração é a única função do corpo que decorre involuntáriamente, mas que também pode ser controlada. Só que de tão evidente tomamos às vezes o bom funcionamento deste processo como uma garantia certa e nos esquecemos que maus hábitos do dia a dia podem se transferir para e cristalizar na prática dos instrumentos. Respirar corretamente implica também numa distensão automática da musculatura e do corpo como um todo que, trabalhando sem esforço resulta na liberação de um som mais rico tímbricamente e portanto mais expressivo além de controlável diretamente a partir de sua fonte.
Respirar em função de um instrumento de sopro não exige entretanto tanto no aspecto quantitativo como do qualitativo, quer dizer disciplina. No caso dos instrumentos que não são de embocadura livre dependem ainda da escolha de boquilhas, palhetas, sua combinação em função da capacidadade individual, que pode ser alterada mas não forçada, o que resultaria em tensão, em esforço corporal extra e iria portanto contra os princípios ergonômicos que condicionam uma boa técnica. Ao se imaginar um saxophone como um tipo de sino alongado com chaves, por eemplo., não se poderia ao mesmo tempo executá-lo/percurtí-lo abafando-o ao mesmo tempo e se esperar uma sonoridade rica...
O controle respiratório é também hoje em dia recomendado a instrumentistas de outras áreas devido a estes princípios. Interpretação e improvisação, envolvidas na explicitação da sintaxe e forma musicais, dependem também de uma constante alternação entre tensão e relaxação que são veiculadas pela respiração como reação primal a situações na vida real que induzem a mudanças no pulso, quantidade de adrenalina no sangue, etc. Estas situações também se encontram representadas sob forma de uma contextualização virtual na arte musical que, decorrendo no tempo implica uma certa tensão contínua na execução, a ser evitada ou pelo menos diminuída prioritariamente.
Como dito, o aspecto ergonômico, da construção de instrumentos à sua execução representa assim uma das últimas fronteiras atualmente a serem pesquisadas, onde ainda se espera um progresso substancial seja em termos da melhoria técnica ou da prevenção de doenças profissionais (40% de músicos nas orquestras européias) que interessam primordialmente os envolvidos nesta atividade, paradoxalmente associada ao lazer por parte dos que passivamente dela participam ...
Dito isto seguem-se alguns exercícios básicos de uma série de variações sobre o tema...
RESPIRAÇÃO ABDOMINAL
Deite-se com as mãos por trás da cabeça e ponha uma pilha de cds na região do umbigo. Tente movê-la para cima (inspirando) e para baixo (expirando) o mais lentamente possível. Deve-se tentar fazer com que mesmo a um leve tremor da musculatura os cds não caiam. O fortalecimento da musculatura é o intuito deste exercício. Aumente o peso eventualmente para treiná-la também em termos de resistência.
Desta forma se adquire o controle sobre a amplitude do movimento e sua regularidade, essenciais para o controle da vazão de ar na situação real. Nesta fase não interessa muito mover o peitoral. Faça isso também quando quiser relaxar.
RESPIRAÇÃO COMPLETA
Ampliada esta base de ação do sistema, fique de pé e tente o mesmo algumas vezes. Só que a um dado momento interrompa o processo de inspiração na base, tornando a musculatura imóvel. Mas continue inspirando de forma que o resto do ar que entra seja dirigido para a região das costelas. Para expirar é só deixar o peitoral se esvaziar naturalmente devido justamente à pressão exercida pelas costelas. Ao fim desta etapa comprima o diafragma iniciando um novo ciclo que exercitaremos abaixo.
A eficácia deste segundo sistema (respiração completa em yoga) é uma consequência do primeiro: veja que quanto mais aumenta a capacidade daquela região abdominal mais ar pode ser "enviado" e armazenado para a parte superior do sistema. Isto é fundamental para aquela correspondência entre comprimento/compressão da coluna de ar e o instrumento.
Este processo busca equilibrar a balança sonora do instrumento que varia segundo a região. Ou seja, o aumento ou diminuição de seu corpo de ressonância de maneira adequada e proporcional ao se passar da 2ª para a 3ª oitava e vice-versa. Tal homogeneidade timbrística pode também ser alcançada através da liberação (via movimentos mínimos do lábio/maxilar inferior) das áreas da palheta que correspondem às diferentes regiões do instrumento. Mas isto é assunto para um próximo texto...
Um sistema não invalida o anterior. A Respiração Completa é baseada na Respiração Abdominal. Ambos podem ser usados alternativa e espontâneamente como um desenvolvimento complementar. Justamente essa alternância é o que torna possível a respiração circular da qual falaremos a seguir.
Para exercitá-lo inspire contando até 4 e retenha o ar contando até 16 de forma a expandir o tórax e aumentar também sua compressão. A seguir deixe a expiração decorrer naturalmente contando agora de 1 a 8, de forma a discipliná-la melhor no sentido mais uma vez da vazão de ar. Este exercício pode ser praticado andando ou numa proporção de 3-12-6.
Variações seguirão...
RESPIRAÇÃO CIRCULAR
Cumpridas as etapas anteriores apanhe um canudo e um copo dágua. Treine uma ou duas vezes como explicado no parágrafo anterior. A partir de um dado momento comece espontaneamente a usar a cavidade oral como uma câmara de ar sobressalente que se apóia no funcionamento automatizado da expiração explicado acima. Daí a importância de já se ter assimilado o exercício anterior como um reflexo: no momento em que está expirando tente deixar o peitoral baixar por si e concentre-se em inspirar com o abdômen e assim "regenerar" o sistema. Este passo é só temporário pois pode-se também respirar continuamente sem inflar demasiadamente as bochechas (o que tem a vantagem de não deformar ou desestabilizar a embocadura). Isto demanda um certo tempo de prática...
Como se percebe trata-se de uma integração dos 2 sistemas anteriores que com o tempo acontece de se mecanizar (para a execução do instrumento, somente, inimaginável sem um fator de resitência e portanto não tão "natural"), tornando-se estes processos reflexos. O principal é pensar no plexo solar sendo movimentado para fora ao inspirar e para dentro ao expirar, para o quê se mobilizam automaticamente os músculos envolvidos, sem que se tenda a privilegiar um ou outro sistema ou mesmo vir a se pensar neles.
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Textos pesquisados e selecionados da internet por Sydnei Lucchesi Le Petit. |